sexta-feira, maio 28, 2010
sexta-feira, maio 07, 2010
06/05/2010
A minha avó foi ontem internada no IPO para ser operada a um “sarcoma das partes moles da anca”. Parece que o nome pomposo da coisa faz jus à complexidade do bicho. Apesar de lhe terem dito por várias vezes que é maligno, acho que no seu já fraco entendimento, mantém uma postura de negação. Talvez seja a melhor opção. Será neste momento a que menos sofrimento lhe causa.
À sigla IPO associamos invariavelmente dor, sofrimento, cabeças calvas, tons de pele macilentos e morte. Ontem, depois de ter feito Lisboa-Coimbra de “escantilhão” no seguimento da voz embargada da minha mãe, deparei-me com uma enfermaria banhada por raios de sol fortes e quentes.
À sigla IPO associamos invariavelmente dor, sofrimento, cabeças calvas, tons de pele macilentos e morte. Ontem, depois de ter feito Lisboa-Coimbra de “escantilhão” no seguimento da voz embargada da minha mãe, deparei-me com uma enfermaria banhada por raios de sol fortes e quentes.
Lá dentro, para além da minha avó, estava uma “repetente” na matéria. Com o à vontade de quem carrega o fardo há 30 anos ia deixando sair os termos médicos mais complexos; desfilava o rol de exames complementares de diagnóstico que ao longo da vida tinha feito, bem como os resultados e reacções aos mesmos.
Estava ainda uma outra senhora de 48 anos. Pequenina, rechonchuda e bem-disposta. Na cabeça, apenas um gorro branco a esconder a calvície que 7 meses de quimioterapia lhe provocaram. No domingo foi-lhe removida a mama esquerda. Mal mexia o braço e o penso gigantesco que lhe cobria o peito não era suficiente para tapar o buraco que vai ficar. Cancro galopante dizia ela. No olhar um brilho difícil de perceber num local daqueles. Uma boa-disposição contagiante. O meu espanto quando contou que no seguimento do rastreio e por falta de dinheiro (era a consulta ou uns óculos), tinha ponderado nada fazer ao bicho que a consumia e lhe retirava diariamente as forças. (Como é que isto acontece ainda hoje?)
Deu lições de manha feminina, soltando largas gargalhadas enquanto contava a primeira zanga com o marido, 8 dias após o casamento. Como fingiu que não se conseguia mexer e o obrigou a levá-la ao colo para a cama. Onde as pazes foram feitas ao ritmo do desejo e da juventude. E onde prometeram nunca mais “amuar o burro” por grave que fosse a discussão.
E em toda a fragilidade daquele corpo senti uma força que só a simplicidade pode trazer.
Pensei em presenças e ausências. Na definição de momentos importantes. No post antigo acerca da mulher que quero ser. No que me distancio ou aproximo dessa projecção. Na adrenalina ou falta dela. Nas dúvidas, certezas, complicações e caminhos.
Estava ainda uma outra senhora de 48 anos. Pequenina, rechonchuda e bem-disposta. Na cabeça, apenas um gorro branco a esconder a calvície que 7 meses de quimioterapia lhe provocaram. No domingo foi-lhe removida a mama esquerda. Mal mexia o braço e o penso gigantesco que lhe cobria o peito não era suficiente para tapar o buraco que vai ficar. Cancro galopante dizia ela. No olhar um brilho difícil de perceber num local daqueles. Uma boa-disposição contagiante. O meu espanto quando contou que no seguimento do rastreio e por falta de dinheiro (era a consulta ou uns óculos), tinha ponderado nada fazer ao bicho que a consumia e lhe retirava diariamente as forças. (Como é que isto acontece ainda hoje?)
Deu lições de manha feminina, soltando largas gargalhadas enquanto contava a primeira zanga com o marido, 8 dias após o casamento. Como fingiu que não se conseguia mexer e o obrigou a levá-la ao colo para a cama. Onde as pazes foram feitas ao ritmo do desejo e da juventude. E onde prometeram nunca mais “amuar o burro” por grave que fosse a discussão.
E em toda a fragilidade daquele corpo senti uma força que só a simplicidade pode trazer.
Pensei em presenças e ausências. Na definição de momentos importantes. No post antigo acerca da mulher que quero ser. No que me distancio ou aproximo dessa projecção. Na adrenalina ou falta dela. Nas dúvidas, certezas, complicações e caminhos.
O conforto, por ténue que seja, de ter deixado a minha avó muito bem acompanhada.

