terça-feira, agosto 04, 2009

Sobre a cegueira #1#

Quando Sofia entrou para Direito, era ainda na sua faculdade que se encontrava disponível o material de estudo proposto pelos regentes e assistentes das várias cadeiras. Com o passar dos anos, passou a ter de se deslocar à faculdade de Medicina para obter os textos de apoio.
Enquanto esperava a sua vez para ser atendida, cumpria invariavelmente o mesmo ritual. Silenciosamente entrava no corredor que, ao que se lembra, dava acesso às salas de aula de Medicina e ao anfiteatro onde, a muito custo, assistiu às duas autópsias obrigatórias.
Nesse corredor, preenchido por estantes antigas repletas de frascos de todos os tamanhos, estavam expostos desde fetos com mal formações a órgãos sexuais femininos conservados em formol.
Achava aquilo tudo esquisito, principalmente os fetos de vários tamanhos, que a faziam sempre pensar no que teriam sentido os pais daqueles projectos falhados de descendência. Mas a sua curiosidade mórbida levava sempre a melhor e vez após vez, perdia largos minutos a ler todos os papelinhos colados nos frascos.
De ano para ano não havia sequer uma alteração nas descrições. Mesmo assim, insistia em lê-los vezes sem fim... Procurava talvez atingir mais do que os seus olhos míopes permitiam.
Há muito tempo que Sofia não percorre aquele corredor. Mantém no entanto a tendência para as abordagens repetitivas. Não obstante saber que nada acrescentam ao que já conhece.

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

que post tão mórbido! Será que os orgãos sexuais femininos conservados em formol encerram alguma metáfora?:)

5:16 p.m.  

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