Sobre a cegueira #1#
Quando Sofia entrou para Direito, era ainda na sua faculdade que se encontrava disponível o material de estudo proposto pelos regentes e assistentes das várias cadeiras. Com o passar dos anos, passou a ter de se deslocar à faculdade de Medicina para obter os textos de apoio.
Enquanto esperava a sua vez para ser atendida, cumpria invariavelmente o mesmo ritual. Silenciosamente entrava no corredor que, ao que se lembra, dava acesso às salas de aula de Medicina e ao anfiteatro onde, a muito custo, assistiu às duas autópsias obrigatórias.
Nesse corredor, preenchido por estantes antigas repletas de frascos de todos os tamanhos, estavam expostos desde fetos com mal formações a órgãos sexuais femininos conservados em formol.
Nesse corredor, preenchido por estantes antigas repletas de frascos de todos os tamanhos, estavam expostos desde fetos com mal formações a órgãos sexuais femininos conservados em formol.
Achava aquilo tudo esquisito, principalmente os fetos de vários tamanhos, que a faziam sempre pensar no que teriam sentido os pais daqueles projectos falhados de descendência. Mas a sua curiosidade mórbida levava sempre a melhor e vez após vez, perdia largos minutos a ler todos os papelinhos colados nos frascos.
De ano para ano não havia sequer uma alteração nas descrições. Mesmo assim, insistia em lê-los vezes sem fim... Procurava talvez atingir mais do que os seus olhos míopes permitiam.
De ano para ano não havia sequer uma alteração nas descrições. Mesmo assim, insistia em lê-los vezes sem fim... Procurava talvez atingir mais do que os seus olhos míopes permitiam.
Há muito tempo que Sofia não percorre aquele corredor. Mantém no entanto a tendência para as abordagens repetitivas. Não obstante saber que nada acrescentam ao que já conhece.

1 Comentários:
que post tão mórbido! Será que os orgãos sexuais femininos conservados em formol encerram alguma metáfora?:)
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