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Inevitavelmente, quando por algum motivo a nossa vida sofre uma alteração, todo um novo mundo se pode abrir à nossa frente. Um mundo de opções que até aí, ou nem sequer nos havia passado pela cabeça, ou mesmo que passasse, se afigurava relativamente improvável. Dei comigo a pensar nisso hoje mesmo...
Optando pelo seguro, poderia traçar o percurso tradicional: de enamoramento, tranquilidade e previsibilidade. Mãe de 2 ou 3 filhos que rapidamente se tornariam a grande preocupação e centro da vida. Com um marido/companheiro dedicado ao trabalho, enquanto eu faria da profissão um quase hobby. Algo que apenas alimentasse a ilusão de que havia vida para além daquele núcleo que centralizava todas as alegrias e frustrações. Com jantares e eventos familiares aos quais compareceria religiosamente de sorriso estampado. Com férias sensaboronas, passadas invariavelmente no mesmo sítio, onde ano após ano se encontravam as mesmas pessoas e se tinham as mesmas conversas. E teria uma vida sem sobressaltos; um companheiro ao meu lado que, se fosse sortuda, teria a capacidade de me desafiar e de alguma forma, apimentar uma relação tendencialmente perfeita. A mulher que, aos 50 anos, eventualmente, se torna azeda ao pensar em tudo o que sacrificou em prol dos princípios que sempre achou serem os mais correctos e pelos quais norteou as suas escolhas.
Vi o oposto disto: vi-me livre, feliz comigo e com a minha independência. Senhora dos meus dias e das minhas noites. Sem dar contas a ninguém ou sem necessidade de cobrar a terceiros o que quer que seja. Dando a devida importância à carreira, dedicando-lhe o tempo e esforço que merece e que permite utilizar efectivamente os recursos de que disponho. Vi-me em viagens frequentes, para todos os destinos e com todos os propósitos. Com amigas, colegas ou mesmo sozinha e confortável com isso. Vi-me em concertos, livrarias e salas de espectáculos. Descontraída e sem pinga de ansiedade, saboreando o dia-a-dia sem projectar. Vivendo e aproveitando os encontros que a vida me for oferecendo.
Vi-me inteira, independente, capaz de amar em liberdade e capaz de, com a mesma liberdade que amei antes, deixar de amar e seguir um novo caminho.
Perspectivei ainda uma visão exagerada do último parágrafo. Alguém que procura o gozo superficial, imediato e inconsequente. Que troca de “amor” como quem troca de camisa. Que se entrega sem esperar nada e foge à primeira hipótese pois não tem nada para oferecer. A quem apenas basta ter alguém com partilhar momentos e a quem, depois do envolvimento fugaz, se bate com a porta e se vira as costas. Sem hesitações e sem grandes problematizações. Já com o pensamento direccionado no futuro e sempre com a profissão como refúgio e garantia de normalidade ou, pelo menos, de pertença à sociedade.
Fui ainda para outro extremo. E tentei ser a mulher que deixa de o ser. Que cala bem fundo o instinto e finge ser feliz, enquanto secretamente fantasia com o príncipe encantado. A sombra de mulher que acorda inundada em suores pelo sentimento de culpabilidade que um simples sonho lhe provoca. Que se penitencia todo o dia por invejar a coragem e atrevimento das mulheres à sua volta, mas que finge a cada minuto ser aquele um percurso que escolheu.
Espartilhei-me e vi a tontinha em que me posso tornar. A mulher castrada. Presa em si própria, que não se permite tentar por não aceitar sequer a hipótese do falhanço. Dominada pelo desejo de pertença ou por esperanças infundadas. Incapaz de se mover de onde está; de rasgar caminhos, arriscar e procurar a felicidade num mundo que vá para além daquele que já é conhecido. A mulher que não é capaz de viver por si e para si. Que espera encontrar no outro a resposta para todos as suas dúvidas e inquietações. Que fica miseravelmente dependente e incapaz de tomar uma atitude de ruptura por medo de se magoar ou de assumir o erro. A mulher que não se consegue libertar de todos os preconceitos que lhe foram enfiando na cabeça e que nunca questionou, assumindo-os como verdades insofismáveis.
Que mulher serei no futuro?

4 Comentários:
Parece-me que já sabes bem que mulher queres ser... só ainda não o admitiste.
E vais ser, assim como já o és, uma grande mulher. Com passado, presente e sempre empenhada a construir o futuro que desejas, que te preencha.
Depois de teres escrito esta reflexão, o único conselho que te posso dar é: sempre que sentires dúvidas sobre o tipo de mulher que queres ser, lê o teu post.
Tenho a certeza que vais encontrar logo a resposta!
Vai uma aposta? ;)
uma mulher...seguramente.
Excelente post.
Subscrevo Lidius...
A ti Li: és, foste e serás sempre uma grande mulher. O que és depende de ti, dos teus valores e princípios, do teu meio, de quem te rodeia ou daqueles por quem te deixaste rodear (sou uma privilegiada neste aspecto)não deixas que os outros te façam, faz-te,SÊ, vive...não te bastas, mas tens-te, tens-nos...és a mesma Li, mais mulher, masi adulta, talvez não muito certa do que quer, ou sem querer ver que sabe o que quer, mas demasiado certa e consciente do que não quer...segue o teu caminho, vai, nada temas...nós estamos aqui!!!!
Xxxxxxx
que bom não ser a única.
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